- Gram +.
- Imóveis, não esporulados.
- Dispõem-se em cadeia.
- Podem ser alfa, beta ou gama hemolíticos.
- Exigentes do ponto de vista nutritivo pelo que requerem cultura em gelose de sangue (pois este é rico em nutrientes)
- Espécies patogénicas mais importantes: S. pyogenes; S. agalactiae; S. pneumoniae (pneumococus).
Streptococcus pyogenes (do grupo A de Lancefield)
- Gram +.
- Cadeias longas (mais evidente em culturas líquidas ou produtos patológicos).
- Vivem intimamente relacionados com o ser humano (o homem é o único reservatório conhecido).
- Habita nichos particulares como a faringe ou a pele sem criar patologia em condições normais.
- 15-20% das pessoas são portadoras.
- Transmissão por via aérea (amigdalite) ou contacto directo.
Factores de virulência
1. Factores estruturais
- Cápsula: não imunogénica e antifagocítica pois é indistinguível do ácido hialurónico humano.
- Ácido lipoteicóico e proteína F: Medeia a aderência às células epiteliais.
- Proteína M: antifagocítica, degrada C3b.
2. Toxinas
- Toxinas pirogénicas ou eritrogénicas: podem ser tipo A, B, C ou D. São superantigénios. induzem a libertação de IL-1, 2 e 6; TNF-alfa; TNF-beta e Ifn-gama. Induzem febre, eritema (na escarlatina) e falência multi-orgânica.
- Estreptolisinas S e O: provocam a lise dos eritrócitos, plaquetas e leucócitos. A estreptolisina O é rapidamente imunogénica. Os níveis de anticorpos anti-estreptolisina O reflectem infecção recente.
- Estreptoquinase: lisa os coágulos sanguíneos, facilitando a disseminação das bactérias nos tecidos.
- DNAse: despolimeriza o DNA livre da célula em material purulento, tornando-o menos viscoso. Anticorpos contra a DNAse sãoo especialmente importantes em infecções cutâneas já que produzem anticorpos anti-estreptolisina O.
- Peptidase C5a: degrada o C5a impedindo a quimiotaxia.
Infecções mais frequentes
1. Supurativas
- Amigdalite
- Faringite
- Escarlatina: amigdalite causada por uma estirpe produtora de uma toxina eritrogénica que provoca vasodilatação capilar e eritema difuso. Um dos sinais característicos é a língua em framboesa.
- Impétigo contagioso
- Erisipela: Infecção profunda da derme com bordos bem delimitados, altamente dolorosa e com terapêutica específica.
- Celulite: Infecção do tecido celular subcutâneo com bordos mal definidos.
- Síndrome do choque tóxico
- Fasceíte necrotizante
2. Não supurativas
- Glomerulonefrite aguda: depósitos de complexos imunes (Ac+Ag) na membrana basal do glomérulo renal podendo originar falência renal grave.
- Febre reumática: artralgias reversíveis, lesões valvulares não reversíveis com propensão para a endocardite bacteriana. Principais manifestações clínicas: artrite migratória; cardite (que pode originar lesões valvulares graves);coreia de Sydenham; nódulos subcutâneos e eritema marginatum. O diagnóstico assente principalmente na história clínica anterior de amigdalite/faringite e detecção de anticorpos anti-estreptolisina O.
Terapêutica
Penicilina: antibiótico principal, mais activo, mais eficaz e mais barato. Não apresenta resistências descritas para esta bactéria.
Macrólidos (eritromicina, claritromicina, azitromicina): em casos de alergia à penicilina ou em crianças (porque é oral, ao contrários da penicilina). Em Portugal há 20-25% de resistência.
Mecanismos de resistência
- Bombas de efluxo: codificada pelos genes mef induz o chamado fenótipo M - os estreptococos possuem uma proteina membranar que bombeia activamente os macrólidos para o exterior da célula, longe dos ribossomas (local de acção dos macrólidos). Confere resistência a macrólidos.
- Modificação do alvo: codificado pelo gene erm induz o fenótipo MLSb (constitutivo se resistente a macrólidos e clindamicina ou indutível se resistente a clindamicina apenas após exposição a eritromicina). Ocorre por metilação do ribossoma. Confere resistênca a macrólidos, lincosamidas e estreptograminhas B.
Streptococcus Agalactea (grupo B de Lancefield)
- Beta hemolítico (1-2% gama-hemolítico).
- Indistinguíveis ao microscópio óptico dos do grupo A.
- Coccus gram + em cadeia.
- Imóveis.
- Não esporulados.
- Capsulados.
- Antigénio B (específico do grupo).
- Polissacáridos da cápsula: Ia; Ib; II; III; IV; V; VI; VII; VIII) - As estirpes mais associadas a colonização e doença estão a bold.
- Proteína C de superfície.
Factores de virulência
- Resistência à opsonização e fagocitose: Cápsula e Proteína C (alfa e beta).
- Invasão: Hialuronidase e C5a peptidase.
- Aderência: C5a peptidase.
Epidemiologia
- Nicho ecológico: Homem e gado bovino.
- Causa mastite na vaca mas não na mulher.
- No ser humano coloniza a orofaringe (pouco relevante), intestino e vagina.
Infecções mais frequentes
1. Infecção netonatal precoce: sintomas surgem na 1ª semana de vida. Ocorre quando o parto é eutoccico (normal) e a mulher tem a vagina colonizada por S. agalactiae (10-15% dos casos). Como o sistema imunitário do recém-nascido ainda não está maduro o bebé é mais susceptível a infecção. O quadro clínico mais comum envolve sépsis e pneumonia (raramente meningite).
Entre a 35ª e a 37ª semana de gravidez deve ser feita uma pesquisa de S. agalactiae na mucose vaginal e anal. Se for positivo faz-se profilaxia intraparto (penicilina, amoxicilina, clindamicina, cefazolina ou vancomicina). Se houver factores de risco também se faz profilaxia intra-parto.
Factores de risco associados ao hospedeiro:
- Raça negra.
- Parto pré-termo.
- Ruptura prematura das membranas.
- Parto prévio com doença por S. agalactiae.
- Idade materna <20anos.
- Baixo peso à nascença.
- Grande intervalo entre a ruptura das membranas e a expulsão.
- Bacteriúria com S. agalactiae durante a gravidez actual.
- Doença crónica.
- Índices baixos de Ac capsulares específicos.
- Amnionite, febre intra-parto.
- Colonização materna vagino-rectal com S. agalactiae.
2. Infecção neonatal tardia: Ocorre até ao 1º mês de vida, sendo a fonte do microorganismo exógena (mãe ou outra pessoa colonizada). Transmissão feita através das mãos. O quadro clínico mais comum envolve meningite (mais raramente pneumonia e sépsis).
3. Infecção urinária (mais nas mulheres).
4. Endometrite (no pós parto).
5. Bacteriémia.
6. Infecções da pele e tecidos moles (grupo de risco: Diabetes Mellitus)
7. Outras infecções piogénicas.
Tratamento
- Penicilina. Em casos mais graves pode-se administrar um aminoglicosídeo conjuntamente.
- Infecções urinárias: ampicilina/amoxicilina ou nitroforantonina.
Está a ser desenvolvida uma vacina conjugada.
A mortalidade por infecção neo-natal precoce tem vindo a diminuir (devido à profilaxia). A mortalidade por infecção neo-natal tardia mantém-se constante.
Streptococcus pneumoniae (pneumococcus)
- Provavelmente o estreptococo mais importante em patologia humana (frequência e gravidade das doenças).
- Cadeias curtas (diplococcus).
- Gram positivos.
- Imóveis.
- Não esporulados.
- Alfa-hemolítico.
- O único S. alfa-hemolítico sensível à optoquina (tóxico - só usado em técnicas de laboratório)
Factores de virulência
- Cápsula (o mais importante).
- Adesinas (proteínas de superfície).
- Ácido teicóico.
- Protease para IgA secretora.
- Pneumolisina.
- Peróxido de hidrogénio.
Há 91 tipos capsulares diferentes conhecidos, todos de natureza polissacárida. Como os polissacáridos são maus estimuladores antigénicos as vacinas contra estas bactérias não podem usar os antigénios capsulares para promover a imunidade. Contudo, o Homem desenvolve imunidade contra o tipo capsular específico presente.
São poucos os fenótipos capsulares estão associados a doença no homem.
Identificação do tipo capsular
- Reacção de Quellung: uso de anticorpos específicos contra cada um dos 91 tipos existentes. Consoante o tipo presente, os anticorpos ligam-se à cápsula aumentanto as dimensões deta e tornando-a visível ao microscópio.
Epidemiologia
- O homem é o único reservatório conhecido.
- Nicho ecológico preferencia: Nasofaringe.
- 50% das crianças e 15-20% dos adultos estão colonizados por pneumococcus.
- As infecções são endógenas.
- O pneumococcus é um agente patogénico primário.
- Infecções mais frequentes: sistema respiratório (altas - mais frequentes e menos graves, como as sinusites ou a otite média - ou baixas - como a pneumonia lobar ou a broncopneumonia) e SNC.
- Pode entrar em circulação e causar sépsis ou atravessar a barreira hemato-encefálica e causar meningite (pneumococos e Neisseria meningitidis são os agentes mais comuns de meningite bacteriana em Portugal e estas são as que têm maior taxa de mortalidade e maior probabilidade de deixar sequelas neurológicas nos doentes que sobrevivem).
Condições que predispõem a infecção por pneumococcus
- Infecção respiratória prévia viral: causam lesões no epitélio respiratório e facilitam infecções secundárias por outros agentes, como o pneumococcus.
- Idades extremas (crianças e idosos).
- Doenças hematológicas (linfomas, leucemias, esplenectomia).
Terapêutica
- Beta-lactâmicos (actua na síntese da parede celular).
- Macrólidos (actuam na síntese protéica).
- Fluoroquinolonas (actuam na síntese e replicação do DNA).
Pode haver resistências em qualquer um dos grupos de AB usados.
- Infecções respiratórias: Penicilina (se a bactéria for susceptível). Como alternativa - macrólidos. Último recurso: quinolonas - não têm resistências descritas ainda mas devido ao seu largo espectro evitam-se, até porque quanto menos se expuser as bactérias aos antibióticos menos resistências são causadas.
- Infecções mais graves (meningite): Macrólidos são excluídos pois não conseguem atravessar a barreira hemato-encefálica. Terapêutica empírica: Cefalosporina de 3ª geração que consiga atravessar a BHE e seja activa contra pneumococos (ceftriaxona ou cefotaxima) ou com glicopéptidos (vancomicina - grande, atravessa mal a BHE e não é tão bactericida como outros antibióticos). Se, quando vierem os testes de susceptibilidade aos AB se verificar que a o pneumococos é sensível à penicilina, inicia-se terapêutica com esta e suspendem-se as cefalosporinas e a vancomicina.
Profilaxia das infecções por Streptococcus
S. pneumoniae
- 23-valente: Baixo valor imunogénico pois não possui proteínas. É pouco eficaz na criação de imunidade.
- 7-valente: possui polissacáridos de vários tipos serótipos capsulares (14, 6B, 16F, 18C, 4 e 9V) conjugados com uma proteína (toxóide do tétano) que ajuda na capacidade de activar os linfócitos. Introduzida no ano 2000 nos EUA de forma gratuita e obrigatória nas crianças até aos 2 anos. Verificou-se menos infecções nesta faixa etária e nas outras (imunidade de grupo). Permitiu também a redução das resistências aos antibióticos usados no tratamento daquele agente. Em Portugal foi introduzida em 2001 de forma não comparticipada pelo programa nacional de vacinação. Recomenda-se a vacinação até aos 6 anos (idealmente até aos 2). A vacina é menos efectiva em Portugal pois os serótipos predominantes em Portugal são diferentes dos dos EUA. Contudo, verificou-se o mesmo do que nos EUA só que em menor escala (conferia imunidade a cerca de 60-62% das infecções).
- 13-valente: está a ser produzida. Introduz novos serotipos à anterior.